quarta-feira, 23 de novembro de 2011



Queimaste um grito no apagar de um cigarro.
Ouviste sirenes ao longe. Pensas sempre na dor de quem as acolhe.
Noutro dia, aventuraste ir onde não se quer saber.
Vestida a farda do egoísmo, subiste as escadas da cave que não cabe.
A fumar de novo, cospes um tonto tossir. O medo brincou contigo.
E logo apareceram as luzes, as vezes e um par de nada.
Não pretendias levantar-te. Não fossem os sons.
E as sirenes a dizer que estão vivas por causa da morte.
O que te lembraste foi esquecido pelo barulho daquele tom amarelo.
E outro azul, que combina com as partes que queres esquecer.
Tiveste as costas à mostra, queimaste um grito uma outra vez.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Meia tarde e um pombo perdido.


No dia de ontem não choveu o que havias esperado
Raios partam a fome de raios cor-de-fogo, pardos
Descalço, apareceu-te um tapete de luz, silêncio atado por cordéis
Vincaste-lhe as calças de terylene e engomados os colarinhos
Parecias normal, quando te convidou ao abraço da rua
E, sem mãos que se aqueçam, lograram a pérfida aventura
No dia de ontem houve trovoada na cinza do alto prédio
Barulho a mais e o cheiro a comida terminada, cheiro a fazer
Não olhaste para trás, medo de ver o ouvido, de ouvir o não visto
Pareciam banais, ele à frente, tu atrás – onde existe o homem-guia
No dia de ontem houve o que não houve nos outros dias
Não bocejaste três mil vezes, deixaste a loiça em banho-maria
O ruído das cores dos carros e o exagero, saliva colada aos cantos
Chamou um táxi que nunca pára, comprou-te algodão quase doce
Estavas ocupada, mulher desarmada no rumo do mesmo dia
No dia de ontem pensaste tantas vezes, passo atrás, medo agreste
Chamaram-te ao longe, no outro lado da vida e nunca o viste
Gritaram-te as forças, choraram-te as mossas, disseste que sim
Que sim, que não conhecias outro plano, que sim, sem altura ou fim
Cativaste meia parte de uma pequena parte, a demora da luz
No dia de ontem tiraste um retrato com ele, palavras não ditas
Chamaste o azul para te adornar o momento, e ele apareceu
Evocaste o astro para te adornar o rosto, maquilhou-te ao de leve
Quiseste um dia de gotas, chuva que borraria o que tinhas pintado
Apareceu um pombo, surdo de olhos, cego de ouvidos - ode ao tempo
Um tempo que a meio já era meio tempo do esperado e mais ainda
Mais ainda te dizia o que não sobrava comer de um dia passado
E regressaste ao tal cheiro, no prédio alto, feliz por quase nada
Feliz por teres ido ao vento quando forte, feliz pelo cansaço

terça-feira, 15 de novembro de 2011

E nada ter sido.


Ter a dignidade escorrida nos aleatórios dejectos de uma ave incontrolável.
Ter os olhos espantados, tão abertos quanto o portão de entrada das surpresas.
Ter tido uma gravata engomada, vincada em dias que se forraram a falso veludo.
Ter sido, um dia, alguém sem aspas, senhor de maiúsculas no nome e no porte.


Ser inteiro, nas metades e nos quartos, possuir um valor incalculável.
Ser assim, cozido ou assado, fabricante do cheiro de velas acesas.
Ser domingo, segunda e feriado, ser o esqueleto de um dia, ou sobretudo.
Ser o hoje no tapete de amanhã, onde limpam os pés e despejam a sorte.

Ter sido um ser tido, Iludido Manuel, de apelido Conivente.
Ser pago para tudo, remunerar a fome e fingir ser contente.

Ter bebido, ser esquecido e não desistir, verbo agarrado aos suspensórios.
Ser parecido com o que queria ter sido, vencer a parda cor dos dias inglórios.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

As mil maneiras de segurar um sol.



Amanhã vais perguntar-lhe o que não sabes.
Amanhã vais perguntar-lhe porque se nasce, de morte anunciada, porque comemos o que não temos, porque nos encontrámos ou desaparecemos, vais querer saber o sabor dos telhados das casas de pão-de-ló, vais querer lamber feridas que não se mostram, também procurar o que não existe.
Amanhã vais empurrá-lo num caminho sem sentido, questionar a razão de todo e qualquer pedido, soltar gritos de espanto perante um pranto envelhecido, vais querer navegar onde a água é uma miragem, sobrevoar toda a superfície de um prado de argila, mergulhar a pés juntos num doce de gila e queimar um incenso sem cheiro ou outras lamparinas tão cheias de vazio.
Amanhã vais embalá-lo sem braços, adormecê-lo em sonhos sem nicotina, acordá-lo com o silêncio da tua ausência. Amanhã vais patrocinar uma trovoada, só para mostrares o tamanho dos teus dedos, vais desvendar o que nunca foi segredo e esconder o que jamais passou da novidade, vais tricotar um colete de medos, chamar-lhe nomes  complicados, salteá-lo em lume brando e provar, colher de osso na mão e olhar azedo.
Amanhã vais querer um Sol só para ti. Vais perguntar-lhe o que sabe da caça ao mesmo, insistir e vergá-lo na força da conquista, vais ainda sorrir sem o querer, oferecer enfeitados presentes, dedicar bafientas canções. Na ameaça de lhe sorveres o conteúdo dos olhos, ameaças a pergunta e vais querer saber as mil maneiras de segurar um Sol.
Amanhã vais fazer de tudo para ele se tornar cedo, entrecosto da tarde e meio-irmão do nada.
Amanhã, quando ele se tornar presa de dez sujos lençóis, passo amarrado a um piso abismo, vais perguntar uma última vez. A voz ameaça a queda, a queda anuncia a morte, a morte anunciada, para a qual se nasce, na tua primeira pergunta formulada. E, de novo, faltará o sentido.
Antes que o amanhã acorde rabugento, responder-te-á, na esquina do medo, que o Sol não é o que te gravaram na definição, o Sol podem ser elas, eles, outros, aqueles. Pode até ser aquele pé de feijão, que cresceu para dar sombra aos três dedos do pé direito, pode ser um sorriso, uma corrida, um olá, um banco de madeira estragada onde haja espaço para duas mãos. E mais te dirá, antes que de cedo se comece a chamar tarde.
Amanhã, não lhe perguntes mais. O Sol é de manobras difíceis, escapa à asfixia de fios mandões quando a resposta é tão simples, porque tu já és Sol a queimar-te o peito e mais Sol serás, por tantas chuvas que venham inundar-te. E afinal, sem te deixares enlear, tens um Sol a bailar nos teus fios e outro gravado na pele de um feito.